— Quer tentar ser só minha amiga? — perguntei.
Ela riu.
— Você conseguiria?
— Não. Não posso ser só seu amigo. Não sou só seu amigo. Amigos não querem pegar amigos. Vai contra as regras da amizade.
— E você quer me pegar — afirmação, não pergunta.
— Bastante — passei a língua pelo lábio superior dela.
— “Bastante” quanto?
— O mesmo tanto que você quer me pegar — respondi. — Bastante. — Quem disse que eu quero?
— Sua mão — olhei pra baixo. — Ficou apalpando minha coxa durante essa conversa toda.
Tenho uma mania de tomar conta das pessoas que são importantes pra mim como se elas fossem indefesas. É bobo, eu sei, mas me preocupo com coisas do tipo, se a pessoa está respirando no meio da noite.
Solidão não é quando me viram as costas e as músicas tristes me invadem. Nem sequer é quando escuto dos meus pais que sou um fracasso e que preciso de ajuda, ou quando os romances pessimistas que leio me dizem sobre o que eu não sou: eu mesmo. Solidão não é esta ausência à minha frente, nem mesmo é a boca muda em dias de festa, quando os tiros falam mais alto e as vozes são exaladas por silentes. Solidão não são as palavras cabendo dentro do teu peito minúsculo ou dentro do teu orgulho/silêncio/falta de amor. Solidão não é a queda como eu pensei ser, nem o não-toque nem a guerra declarada nem quando meu peito é coberto por lágrimas docemente salgadas. Solidão não é o buraco que restou na parede do quarto, nem esta ferida no dedão do pé, que queimou o chão em que eu andava e arrastou a esperança para a vala. Solidão não é a falta de algo ou alguém, muito menos o vácuo que se estende pela imensidão do meu quarto-pequeno.
(solidão é quando estou cara a cara com você, quando estou ao seu lado, quando estou perto, quando eu te enxergo. Solidão é quando estou conversando contigo mas a sua língua não é a mesma que a minha. É quando eu te procuro e você está mas não está, ou quando eu te vejo mas não te sei. Eu nunca te sei. Eu nunca te fui.)
Quero ter uma casa bonita, um bom emprego e um animalzinho de estimação pra gente chamar de filho enquanto ainda não temos um. Quero a sua ajuda na faxina da casa, quero fazer bagunça na sala e quero brigar com você por causa da desorganização do armário. Quero ir no mercado com você, te beijar na fila enquanto não chega a nossa vez de pagar, andar de mãos dadas por aí e sentar num banquinho da praça pra ver a lua do seu lado. Quero ir no cinema com você, quero me esconder no teu abraço nos filmes de terror, quero ouvir a sua gargalhada bem próxima do meu ouvido nos filmes de comédia, quero fazer você buscar uma pipoca pra mim no meio do filme e beber toda sua coca-cola. Quero lavar o seu carro com você e te molhar com a mangueira só pra ver sua cara de bravo, quero que você corra atrás de mim pra me dar um abraço encharcado, quero pedir uma pizza a noite e comer no sofá com você tomando um bom vinho. Quero jantar fora com você, me vestir pra você, me arrumar pra você, entrar no meio das suas pernas e perguntar se eu tô bonita pra sair do lado do homem mais lindo do mundo. Você. Quero fazer planos, viajar, conhecer lugares diferentes, quero sumir do mapa, quero ir pra um lugar onde a gente só tenha a gente, e que isso seja o bastante. Eu quero viver o melhor da vida do seu lado. E eu não vejo a hora desse querer se tornar realidade.